A  VIDA DE CHUCK E A PSICANÁLISE COMPARADA

 

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INTRODUÇÃO

Novamente a sétima arte nos abraça com uma obra prima, “A vida de Chuck” (2024), com direção e roteiro de Mike Flanagan, baseado em um conto de Stephen King, publicado originalmente de 2020.

O conto é rico em informações psicanalíticas, onde conta a trajetória em ordem cronológica inversa da vida de um homem, e sua construção psicológica, seus valores e princípios, conexões com pessoas, e claro, com suas emoções.

A produção cinematográfica trabalha muitos momentos da vida do personagem fictício Charles Krantz, conhecido como Chuck, em diversas fases de sua vida, com lindas passagens presentes em sua memória de pessoas importantes, delineando as emoções vividas ao longo de toda a sua trajetória.

Tenho por objetivo nesta resenha, demonstrar as teorias psicanalíticas presentes ao longo desta obra prima do cinema, ainda que possa citar alguns pequenos trechos do filme ou mesmo do conto, a qual o trabalho se baseia.

 

EU CONTENHO MULTIDÕES

A frase “Eu contenho multidões” que frequentemente é citada no filme, é do poeta norte-americano Walt Whitman, e está localizada no poema “Canção de Mim Mesmo” (Song of Myself), onde demonstra a complexidade humana.

O trecho mais famoso do poema é o verso final da estrofe 51, onde traz toda essa magnitude humana de poder agregar conhecimento, experiências, sentimentos e toda a mais vasta possibilidade de pensamentos que a mente humana possa conter.

“Eu me contradigo?

Muito bem, então eu me contradigo.

Sou vasto, contenho multidões.”

 

Em psicanálise podemos afirmar que nosso inconsciente é a parte de nossa mente onde abrigamos a mais vasta quantidade de pensamentos, sentimentos, ideias, vivências, pessoas, bem como traumas, experiências e instintos reprimidos, que moldam nossa personalidade.

 

É uma parte de nossa mente que não temos acesso constante, sendo que de modo indireto, tem participação em nossas ações, decisões e atitudes, se manifestando de modo quase anônimo, interferindo em nosso dia a dia, silenciosamente, onde muitas vezes, nem sequer sabemos o por quê daquela atitude tomada ou não.

 

Na primeira tópica de Freud, temos a localização geográfica de nossa mente como em um iceberg, em metáfora, que descreve a parte acessível como consciente, um segundo acesso mais profundo como pré-consciente, e a parte mais profunda desse “iceberg”, como a maior e sem acesso direto, o inconsciente.

 

No filme, fica clara a demonstração dessa manifestação do inconsciente da personagem, quando em seu leito hospitalar, o mesmo vivencia o mundo criado dentro de sua mente, rico em histórias e pessoas, abraçando tudo aquilo que vivenciou.

 

Durante o sonho, a manifestação de Chuck viaja pelas leis do inconsciente de modo a não respeitar tempo ou espaço, os personagens do sonho ainda que incomodados não emanam sentimentos e todas as imagens ou pessoas, carregam significados ocultos ou não, se tornando irrelevante por vezes, porém, o significado mais importante senão, o fim.

 

Mas o filme não demonstra essa ideia o tempo todo. Mas em sua parte inicial é evidente que Chuck viva esse momento através de um sonho enquanto em coma no seu leito hospitalar.   

 

 

MECANISMOS DE DEFESA: SUBLIMAÇÃO

 

Em outra momento do filme, Chuck, gera uma dúvida se a dança na rua aconteceu ou não de fato, já que amava a dança e que desde criança havia aprendido a dançar com sua avó e se tornara um grande dançarino que é demonstrado em momentos distintos e comprovado em fases distintas de sua vida. Realidade ou lembrança?

 

Amante da dança, porém, seu avô, contador habilidoso, despertou o conhecimento no jovem, instigando-o sob o argumento da familiaridade da matemática com a dança, facilitando o jovem com sua tarefa acadêmica em casa, onde anos mais tarde, ele, Chuck teria seguido os passos de seu avô e se tornado contador.

 

A dança aconteceu de uma forma inusitada, após um período de luto vivido pela família. A família de Chuck resumi-se em seus avós já que seus pais sofreram um acidente de carro resultando na morte deles e inclusive de sua irmão ainda na barriga de sua mãe.

 

Após longo período de luto da família, e ele ainda criança, ao passar por uma manhã pela cozinha, observa sua avó inciando os passos de dança, de uma música já conhecida para nós expectadores. Mas e a música? Lembra da atemporalidade e do deslocamento, leis do inconsciente? Pois é, Freud explica.

 

Naquele momento ao perceber que Chuck a observava, a avó então o convida a dançar e assim começa a saga do dançarino, onde após ingressa nas aulas de dança de sua escola se tornando uma dançarino promissor, conduzindo-o inclusive no despertar de emoções mais profundas provocadas pela admiração, tanto boas quanto mágoas e traumas.

 

Neste ponto podemos afirmar que seus pilares, sua avó e seu avô, eram representados por aquilo que aprendeu a amar, com o amor: a dança e a contabilidade.

 

 

O LUTO

 

O luto vivido pelos personagens aos poucos tomaram conta de novos caminhos, onde a ideia aceitável é o sentimento de esvaziamento do mundo, mas superável, ainda que de forma trágica como no caso dos pais de Chuck.


Nota-se que o processo do luto é constantemente trabalhado no filme em diversas nuances, do início ao fim do obra.

 

Existe uma previsibilidade, mas o fator surpresa tende a ser mais destrutivo, já que como a própria ideia demonstra, é algo que não se espera e foge, ao menos, da ideia de aceitação naquele tempo, quebrando uma ordem cronológica aceitável.

 

No filme é claro que todos viveram seu luto, no seu tempo, e de modo natural. “O viver” retomou seu espaço, e as novas funções daqueles que antes simples avós, agora, participaram de forma mais direta no processo evolutivo da personalidade de Chuck.

 

Para Freud, essa mudança de papéis possui um grande risco para a criança, uma vez perde-se em princípio o destino da rivalidade dentro do Complexo de Édipo, exigindo mais atenção dos avós quanto a isso. Notoriamente, na obra, se saíram muito bem, ambos, já que Chuck pelo que demonstrado se tornou um homem bom, com sua esposa e filho, e um mundo agradecido pela sua presença. Ou ao menos assim, em seu sonho, identificou o quão grandioso era o seu ser.

 

Ou seria apenas um sintoma de megalomania causado pelo seu estado de inconsciência? 

 

 

O FIM DO MUNDO?

 

Sinto-me emocionado em escrever esta resenha utilizando dados comparados da psicanálise, pois trata-se de duas grandes paixões de minha vida: a cultura do cinema e a mais recente, a psicanálise.

 

Em apertada síntese, ponho-me a refletir: e quanto ao fim do mundo proposto? Qual seria o mundo? O nosso? Passemos a análise:

 

O filme quando cita a famosa frase do poema de Walt Whitman “eu contenho multidões”, já deixa uma dica do que esperar das cenas seguintes. Mas apenas um olhar muito atento poderia em uma primeira vista entender a profundidade desse filme baseado em um conto.

 

A ideia da frase naquele contexto, liga-se ao inconsciente de forma plena demonstrando a magnitude e toda a vastidão do ser, e riqueza de detalhes na obra cinematográfica de modo mais lógico, mas que jamais compreenderá a riqueza ilógica de conteúdo a qual nosso inconsciente acumula por segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos de informações sem processamento. Apenas guardando e acumulando informações, ideias, sentimentos, traumas.

 

E a vida, é um sopro.

 

Mas que por fim, as estrelas se apagam, e todo o mundo simplesmente se vai com elas.

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